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wallacelima

  • 02:43:25 am on Março 7, 2008 | # | 1

    Como o YouTube ficou horas offline
    O grande ataque à internet ainda está por vir.

    (fonte: Link Estadao, por Pedro Dória)

    No domingo da semana passada o governo paquistanês derrubou o acesso ao YouTube em todo mundo. Durou duas horas e foi no dia em que há menos gente online em toda internet. Não foi de propósito. Ao menos, não parece ter sido. Mas o erro desastrado mostra uma fraqueza da rede.

    O objetivo do governo era censurar o acesso ao YouTube dentro do Paquistão. Oficialmente, reclamavam de filmetes com as caricaturas dinamarquesas de Maomé. Há quem diga que a censura era política, mesmo: queriam impedir a circulação de certas críticas ao presidente Pervez Musharraf.

    A ordem de cercear o acesso foi dada à empresa estatal Pakistan Telecom, que controla todos os provedores do país. Por sua vez, a PT recebe o sinal da internet via PCCW, uma telecom chinesa.

    A maneira que decidiram executar a censura não foi complexa. Todo endereço de domínio da rede, URLs do tipo http://www.algumacoisa.com, corresponde a um endereço numérico que é o localizador de fato do servidor. Quando o usuário digita a URL, seu provedor de acesso confere uma tabela para checar que número cabe àquele domínio.

    Para impedir que os paquistaneses acessassem o YouTube, a Pakistan Telecom trocou o número das tabelas. Quem digitava “youtube.com” ia dar em lugar nenhum. O problema é que a internet é construída de tal forma para manter-se uniforme. Quando um site hospedado numa máquina é transferido para outra, o endereço numérico que corresponde a seu domínio muda. O provedor de acesso então modifica uma tabela e esta modificação é replicada de tabela em tabela até que se espalhe por toda internet.

    Evidentemente há os momentos em que a mudança é falsa. Existem sistemas de checagem para dar conta destes processos. Quando mudou-se a tabela paquistanesa, o passo seguinte foi mudar a tabela do provedor de Hong Kong. Neste momento, se o sistema funcionasse corretamente, vários testes acusariam o engano. Internamente, dentro do Paquistão, ninguém conseguiria acessar o YouTube. Mas de lá para fora nada mudaria.

    Não se sabe o motivo – e os técnicos estão discutindo arduamente o assunto –, nenhum dos sistemas de segurança funcionou. A mudança na infra-estrutura da rede encomendada pela censura de Musharraf foi engolida pela PCCW da ilha chinesa e, de lá, espalhou-se por todas as outras tabelas no mundo. De presto os engenheiros do YouTube começaram uma operação de emergência para disseminar pela rede a informação certa.

    No final, durou isto: duas horas.
    Houve situações piores. No Natal de 2004, lembra o site CNet, a telecom turca TT Net tirou parte da internet inteira do ar. Para isso, mexeram em suas tabelas de rotas – aquelas que indicam qual o melhor caminho para sair de um ponto da rede e chegar a outro. A tabela, no entanto, estava corrompida. Os especialistas da Renesys, uma empresa de segurança de sistemas, estudaram o caso e acreditam que, como no caso paquistanês, foi sem querer.

    Os computadores da Telecom Itália receberam e aceitaram as tabelas ruins da TT Net. De lá, vários outros provedores de acesso europeus seguiram o mesmo caminho. Todos os usuários conectados à internet por estes pontos de acesso não conseguiam mais ir a lugar nenhum. Demorou alguns dias, mas enfim os processos voltaram a funcionar como de praxe.

    A questão: a rede é baseada em confiança. Se alguém espalha uma informação pelos servidores alterando a infra-estrutura da internet, o normal é acreditar que foi tudo de boa fé. A norma é que todos online contribuem para uma internet melhor. Utópico? Talvez.

    Nossa internet é frágil e, cada vez mais, dependemos dela. Uma ditadurazinha de quinta categoria, há uma semana, pôs abaixo sem querer um site particularmente popular. O diabo é que estes acidentes são idéias para terroristas. O grande ataque à internet ainda está por vir.
    *pedro.doria@grupoestado.com.br

     

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